quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Nonna


Não te quero perder!
Sou ególatra, sou!
Mas não te quero perder!
Não quero deixar cada pedaço de vida que me deste
E sei que se findas a vou esquecer.
Não me deixes!
Não destruas a figura que criaste!
Não me deixes ainda!
Luta, ainda que a tua consciência não te permita
Saber pelo que estás a lutar!
Fica comigo!
Não agora, mas para sempre!
Alimenta o meu egoísmo,
Alimenta-te dele se precisares,
Não padecerás mais do que sustentarei se me deixares.
Não morras nunca!
Não vás!
Não me deixes!

Ressentimento


Odeio-te tanto quanto odeio odiar-te!
Odeio-te porque não amas a vida,
Ou o que ela te deu, ainda que pareça tão pouco.
Odeio-te porque recusas a minha ajuda
E não me deixas amparar-te.
Odeio-te por cada marca de passado
Que massacra o teu presente.
Odeio-te mais porque te adivinho o futuro.
Odeio-te porque não posso estar no teu lugar
Para minimizar a tua dor.
Odeio-te porque nunca fiz nada para que não chegasses aqui
Odeio-te porque te pertenço
E não consigo para de me odiar! 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Pouquidade


Não sou mar nem sou céu
Nem a pedra da calçada
Triste e sozinha,
Amiga e confidente
Que te viu fugir.
Quantas vezes fomos dois?
Perfeitos e incompletos,
Cúmplices e tamanhos
Para um tempo pequeno e fugidio!
Sou sozinha!
De tanto que sou nada, sou tudo,
Na anulação da minha plenitude.
Sou sem ti, porque sou!  

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Escuso


Não preciso de ti!
Porque não és a falta que me fizeste sentir,
Nem o êxtase de quando te pude ouvir,
Não és o que vivi.
Não te choro!           
Porque errei acreditando que exististe,
Nem tao pouco me deixavas quando fugiste,
Não sinto a dor quando imploro!
Não te amo!
Não espero mais do que não soubeste dar,
Não quero, o teu tempo ou a tua vontade,
É mentira viver com a tua verdade.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

sou eu



Não imaginas quantas vezes te invejo

Não por algo que tenhas

Mas pelo que és e eu nunca poderei ser.

Porque não te sentas sozinha num banco de jardim

A ver o tempo passar;

Porque não deambulas perdida

Envolta, em parte nenhuma

Esperando chocar como o teu objetivo

Ou algo que simplesmente te realize;

Porque não mendigas a felicidade

Nos rostos dos que se cruzam contigo.

Não te invejo pelo que tens ou ganhaste,

Invejo-te porque és feliz e sabes sorrir.

E se algum dia eu, como tu, soubesse sorrir

Deixaria de ser quem sou.

domingo, 10 de julho de 2011

Comuto


Por um momento
Vou dobrar as pernas e imobilizá-las,
Vou gritar por ajuda e esperar
Pela boa querença de alguém.
Vou incendiar-me e confiar que me acudam, pois nada mais posso fazer!
Vou sentir o entorpecimento e manter-me dessensibilizada.
Grito, estrangulo, desespero,
Para que alguém se lembre de mim.
Mas não existe nada para além do que sou.
Nesta imensurabilidade de sentimentos desabitados,
Resto eu
E o que fantasia a imaginação.
Ecoa o meu carpido
Neste céu ensanguentado
De corações miseráveis.
Volta!
Entrega a liberdade,
Essa réstia de sanidade que me protege
Desse fogo que arde e queima
Longe de ti!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Delonga

Tentaram tirar-nos o tempo,
Sem consciência de que seria devolvido.
Precisámos roubá-lo,
Tornando-o mais precioso.
Não entendem que existe individualmente em cada um de nós
Unicamente para que nos possamos encontrar.
Tentaram tirar-nos a vida,
Porque não sabem que tu és o ar,
O sangue que corre apenas para que o coração possa bater.
Esse coração que deixa de sentir se não for por ti!
Tentaram tirar-nos o sonho,
Não sabendo que te deitas comigo 
Em todas as noites que não te sinto.
Tentaram tirar-te de mim
Porque sabem que me pertences e vais querer voltar,
Pois por muito que a vida me faça rir,
Tu fizeste-me chorar.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Dolência

Oh triste sorte que me esperas
Tira-o de perto de mim
Vãos são os sonhos, fracas quimeras
Oh triste sorte, meu triste fim!

De tanto que me agarras
Presa ao meu lado caminhas,
Sou eu mais eu nessas estradas
De reles penas só minhas.

Oro caída, já sem alento
Perdida num sentimento que nada é senão vento
Entre paredes sozinhas.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Remoto

Longe de ti nenhum lugar será meticulosamente perfeito,
Nenhuma risada terá a beleza do riso,
Nenhuma tristeza terá o cinzento do triste,
Nenhuma pessoa terá a candura do ser.
Longe de ti não existe nada
Para além do nada que abarca o desejo, a lembrança, a comiseração.
Longe de ti serei apenas um corpo vazio
Cuja alma sobrevoa o que tu guardas
Nessas mãos que me envolvem e seguram,
Com a boca que me beijas e me sugas,
Com o corpo que cobre o meu.
Longe de ti fico sozinha
Agarrada a cada ensejo que me dás.

terça-feira, 1 de março de 2011

Soterro

Venceste!
Mais uma vez venceste, sozinha, sem aliada.
Transformaste a rotina numa comiseração miserável.
Despiste-o desse casaco a que chamam corpo
Que nos dá forma e sustenta.
Em cima da cama ficou a vestimenta, deixando-o nu
Algures entre a crença e parte nenhuma.
A madeira que o ostenta em menos de nada será cinza.
Rodeiam-no os teus derrotados,
Os que ficaram e não viraram costas,
Os que se aguentarão firme
Até à próxima batalha.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Maldizer

Escrevo-te na primeira pessoa porque me autorizaste. Só alguém demasiado próximo de mim conseguiria uma tão vasta mistura de sentimentos. Por isso deixa-me esclarecer-te acerca de como me tens feito sentir, da importância que tens para mim.
Acho graça à forma como chegas, sorrateiro, bem devagar, todos te procuram, mas ninguém quer de facto encontrar-te. Então chamam-te andante, carência, passatempo. Pareces-me perfeito quando estás disfarçado por cada uma das bestialidades que te nomeiam os que te temem já te sentindo. Só quando arrastas o teu aliado és capaz de aparecer. O medo vem e mostra a perda, o fracasso, o receio e tu parasitando nesse sentimento mostras-te finalmente. Afinal eras tu amor, tão simples, tão fácil. Agora sim és imaculado, agora realizas-me. São mais soalheiros os dias, até os de chuva e tempestade. Tudo tem uma piada grotesca, e nada parece incomodar-me. Porque tu vieste amor, e eu deixei-te entrar, com a singeleza de quem precisa, de quem sente. Agora podemos ser, porque não estamos sozinhos. Espera amor, esqueceste-te, e o outro? São precisos dois para te sentir. Não te lembraste, eu sei. E agora? Vais saindo, não é? Com a mesma salvaguarda com que entraste. E eu vou ficando, vou esperando. Agora chamo-te angústia e dor. Espera! Leva o medo! Tu trouxeste-o, mas não precisas deixá-lo ficar! Não vás sozinho...
Multifacetado amor, faz o favor de não voltares!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Desabrigada

Não te pedi que partisses,
Mas não te soube prender.
Eu que quis ser solta,
Que tive medo que levasses aquele naco que ainda me fazia ser!
Tu que não querias ir
Não soubeste ficar,
Não quiseste dar um escasso pedaço do tanto que és.
Pensamos ser nós, para a eternidade que não aguenta, quisemos ser nós.
Como? Se sempre fomos sozinhos?

Morte

Quão infinitamente diminutos podemos parecer perante a imensidão da tua força! Como nos tornas frágeis e pequenos! Porque te cabe a ti o poder da decisão, se fui eu que vivi, se fui eu que lutei, se fui eu que me tornei ser porque decides tu quando me levar? Com que direitos tiras o chão às pessoas que querem saber!? Porque aproximas aquelas águias famintas que comem as carcaças dos que cá ficaram?
Tenho-te ódio porque nunca vens na hora certa e escolhes sempre o errado. Não fosse verdade isto que digo e outros terias levado, outros que te desafiam e merecem ter-te como parceira. Outros que sofrem e fazem sofrer. Fala morte, grita as tuas escolhas. Aparece e luta! Luta tu que és invencível com a tua fraqueza! Tu que és invencível porque não dás opção e porque te escondes. És fraca, mesquinha, velhaca! Porque te misturam com a justiça e a coragem? És covarde! E queres tirá-lo de mim.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Findo

Sentei-me à janela e vi-te passar
Levantei a mão, quis fazer-te parar.
Mas senti-me tão débil, vi-te passar.
Desfilou o passado e o que acarreta
Num cortejo de anos anunciava a sineta.
Enquanto aguardava vi-te seguir
Não era uma festa, não estava a sorrir.
As fanfarras tocavam as palavras não ditas,
Tu que as conheces agora não gritas!
Os palhaços empinavam no nariz as tristezas
Malabares malabavam tantas incertezas.
As máscaras guardavam sorrisos,
Bem-quereres e desprazeres
Que agora não são precisos.
Olhava ansiando os melhores momentos de se lembrar…
No fim da parada, estava sozinha
Tive opção, a escolha foi minha.
Sentada à janela, podia mudar
Eras tu, vida!
Vi-te, , deixei-te passar.

domingo, 18 de julho de 2010

Imensidade


A tua ausência é como o mar!
Ruge o meu grito com o mesmo alento que ele se faz ouvir,
Engole-me a sua imensidão, tamanho é o dano que a tua falta me faz sentir.
Envolvido com a areia, tão intenso a leva como a deixa no caminho,
Não perdura, estremece,
Regressa infinitamente sozinho.
Aparece lá longe, assustadoramente emproado,
Suaviza, apenas, quando já tens chegado.

domingo, 20 de junho de 2010

Entrementes

Enquanto não falo oiço o carinho
Dos que me afagam para me sentir segura.
Enquanto não falo oiço o medo
Dos que estão incondicionalmente desejando não estar.
Enquanto não falo oiço a piedade
Dos que rogam fazer alguma coisa não sabendo o que podem fazer
Enquanto não falo oiço a maldade
Dos que estão por perto mostrando que estão acima de mim
Enquanto não falo oiço a indiferença
Dos que estiveram e se ausentaram.
Nunca, enquanto desejei falar, deixei de ouvir...

domingo, 18 de abril de 2010

Vaga


Sinto-me exausta, os meus olhos querem fechar,
A cama exala a cura que preciso,
Mas não poderei mais deleitar me com o prazer sem ti aqui.
Despertaste-me para dois sentimentos que há muito deixei de sentir:
O auge da satisfação pela tua presença,
A mais sombria angústia pela falta que fazes sentir.
Cada dia será apenas uma ponte para o seguinte,
Que por sua vez é a aproximação da tua chegada.
Cada um deles deixou de ser o que sempre foi.
A dúvida que tenho visto esclarecida: justifica a espera?
Repetidamente motivas-me com o agrado do teu regresso.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Desapego



Em menos de nada descobriram-se as palavras que guardavam segredos,
Descobriram-se segredos nas palavras guardadas.
Acontece sempre da mesma forma,
Nenhuma porta tem robustez para isolar o que dizem, para confinar o que ainda me foi permitido asilar.
O barulho é ensurdecedor, essencialmente pela dor que faz sentir.
O silêncio que lhe segue é ainda mais avassalador, pela mágoa, pelas falhas, pela não oportunidade, pelo fim, pela certeza que de em qualquer parte está um mundo melhor.

domingo, 21 de março de 2010

Coraline


Vi as mãos de tesoura que costuraram a boneca, 
Deixei que me consciencializasse para a infelicidade.
No sonho abri uma porta e entrei
Percebi como tudo é consertável.
Uma lua que poderia ser o candeeiro do quarto
Emanava uma chama capaz de me guiar
As flores cresciam à velocidade da luz
Faziam cócegas e deixavam-me bailar!
Não posso deixar que me fechem a porta
Os sonhos não são perigosos!
Tudo é tão perfeito que não pode ser real
Talvez seja apenas um jogo que podemos jogar.
Com a leveza do ar deixo de sentir
Com a magia presente sou capaz de voar.
Posso ficar para sempre se me tirarem os olhos, vendo a realidade com outros, perdendo a minha identidade.
Vou para casa, já não posso ficar…
Oh não! Ainda estou cá.
Já não vai ficar bem, porque me cosem a boca? Eu quero falar!
Não há nada aqui, só quiseram impressionar-me.
O mundo é pequeno, afasto-me de algo que volta para o meu caminho.
Eu tinha tudo e queria mais,
As maravilhas que me criaram acabaram por me destruir,
Afinal nos meus olhos coseram botões
E a boneca, que as mãos criaram, era apenas outra forma de ver o meu mundo.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O Lugar

Só quero estar aqui
Não importa quão mais mundo há ,
Não importa o que devo esperar porque aqui sinto o ser,
Não importa quantos mais erros vou experimentar porque aqui conheci o certo,
Enquanto houver este lugar é aqui que quero estar!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Vazão



No meio dos olhos tristes
Reflectindo o perdão,
Vi ao longe uma luz, um desejo, pois então.
Com tanto que desejar, não podia preterir
Procurei com atenção
Para não me poder ferir.
Não prescindo, não prometo
Antes só com o receio
Do que perdida no desgosto.
Numa vida singular, numa batalha perdida,
Com tanto que desejar desejei só a saída.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

(In) diferença

Quem te deu o direito, Homem, de julgar
O próximo, o seguinte e todos os outros,
Porque não são como tu?
Quem te outorgou o poder da supremacia,
Indicando o autêntico, o falhado, o vulgar e o estranho, o supino e o aquém?
Quem te crês para deter a razão,
Pronunciando a regra e o desvio como se apenas se pudessem delinear?
Como lidas com a mesquinhez de alguém que não sabe apenas aceitar, respeitando, mesmo não entendendo,
A mesma que te é inerente?
Por que ousas ser protótipo e exemplo se não entendes a desigualdade?

Descontrolo

Não somos mais do que máquinas de pensar!
Cogitando e concebendo,
Provendo mágoas e tumultos obscuros
Contestando a existência e o lugar que ocupamos
Num seio que em menos de nada se desconstrói.
Progressivamente eleva-se a opressão e o desalento,
Impelidos por um pensamento que nem advimos a perceber,
Importamo-nos em direccionar o que, momentaneamente, estabilize,
Permitindo alguma ordem.
Como num ímpeto desapareceu,
Não falamos, não ouvimos, não pensamos,
                                                      Sentimos a mais absoluta e deleitosa exaustão.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Inquestionando

Misteriosamente conheço-me ao conhecer-te
Exalando-me num céu que pertence a cada pessoa,
Debatendo o que me constitui e do que sou constituída,
Descobrindo se é possível caber em alguém.
O meu corpo dormente deixa de fazer parte de mim
Destransforma-se na matéria que no final não me concebe,
Pois o que não sinto não me pode pertencer
Ou talvez vá pertencendo ao que me é permitido sentir.
Somos o que vivemos, e vivemos em conformidade com o que somos,
Perspectivando as imagens que problematizam o sonho,
Não profiras o seu significado,
Não segredes assolando o meu mistério.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Engano



Duvida que alguma sensação ultrapasse a de sentir que tudo o que era certo 
Deixa de ter sentido,
Fazendo com que nos anulemos e assumamos toda a culpa,
Quando somos meras vitimas de decisões.
Um dia, por alguma razão desconhecida, percebemos o que era tão evidente e que nós,
Com uma ingenuidade consciente, conseguíamos disfarçar.
Entendemos que abdicamos daquilo que nos fazia felizes
E optámos pelos que tornaram os amigos tão indispensáveis…
Parecem-nos certas todas as opções,
Vivemos intensamente sem a menor possibilidade de arrependimento,
Até que tudo é posto em causa.
O que nos fez tomar todas as resoluções faz-nos arrepender de cada uma delas,
Mostra-se como o que nunca quisemos ver.
E apesar de querermos apagar, deixou a marca mais profunda.
Não nos mata, mas corrói-nos,
Alimenta-se de cada poro do nosso corpo,
Torna-nos mais fracos…
E depende apenas de cada um de nós não permitir que nos destrua.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Mutismo

Quero ouvir-te silêncio!
Com a paz que embalas o meu sono,
Não carregado com o peso da perda
Não sufocado pela dor da culpa
Não esmagado pela presença indesejada
Não oprimido pela voz desleal
Não acomodado pelo medo de destruir
Não camuflando o desejo de partir.
Por tudo que nem sempre posso dizer
deixa-me ouvir te!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Culpa

O espaço tornou-se silencioso e pesado
Rescendia a enfermidade, a culpa e o fracasso.
Olhava à minha volta e pensava na forma como me fazes sentir,
Não suporto a dor de te odiar como te odeio,
Não suporto o que fazes à pessoa que eu criei.
Somos tão diferentes que nos encontramos
Na infinidade dessa diferença.
Devias ser a minha base,
Devias guiar-me e suportar-me,
No entanto és o exemplo do que não quero ser.
Distanciei-me de ti, mas sinto-te
Com toda a intensidade que me é permitida,
Massacrada pela imagem de como te deixei.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Poema (in)feliz


Perguntam porque não escrevo um poema feliz
Alheios ao que a felicidade representa,
Entendendo a subjectividade de cada palavra
Com o peso das suas próprias vivências.
A felicidade não está no que eu escrevo
Mas no que vocês lêem,
Não parte de mim está inerente ao que são.
Leiam-me com o que têm de melhor,
Há verdades que é preferível não saber
Porque nos tornam pessoas piores.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Indulgência

Poderia chamar-lhe tormento
Mas é mal que não soa…
Quem sabe o meu pensamento
Na boca de outra pessoa!
Premente como uma certeza
Reside na própria dúvida,
Nasceu porque alguém criou
Morreu porque outrem esqueceu.
Dói; dói; sana; sana,
Cura; cura; destrói; destrói.
Em todo lado, à tua volta
Despronuncia o que corrói.

Mais Natal

É dia 24,
Toda a gente está agitada
Que presentes me faltam?
É quase hora da consoada!
Nas ruas podemos ver um correrio infernal
O que se passa com as pessoas?
Mataram o Natal!
Falta o presente da tia
O da Inês quase perdia
Mas que grande correria
Isto está tudo mal!
Então e o tal Jesus?
Esse ficou lá na cruz,
Hoje é trivial,
O que se passa com as pessoas?
Mataram o Natal!
É hora da sobremesa
Saíram todos da mesa,
Centraram-se nos presentes
Agora sim estão contentes
Interessa o que é material!
-"O importante é a alegria!"
Gritam todos com euforia
Mas ninguém tem consciência,
Eles mataram o Natal!

sábado, 19 de dezembro de 2009

Fazes-me falta!



Fazes-me falta!
Sempre que estás ao meu lado
E te tornas inalcançável
Sempre que apanho os pedaços
Do que tornara inquebrável.
Fazes-me falta!
De todas as vezes que se impõe a razão
Procurando só mais um motivo
Que, convenientemente,
Justifique o que não foi a melhor opção.
Faço-te falta!
Porque me torno dispensável.
Porque me permito o acordo
Na inconcordância
Porque te tolero,
Assumindo a tua intolerância.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Outorga



Desamarra-me,deixa-me soltar
Porque não tens forma de me prender,
Permite-me que relembre uma dor que conheço
Para que não tenha de me defender.
Descontextualiza!Preciso fazer sentido,
Não questiones, não quero pensar.
Deixa que a minha voz te oriente,
Mostra-me o que és, não precisas mudar!
Desamarra-me, deixa-me soltar
Porque não tens forma de me prender,
Agita o meu círculo,
Faz-me tremer!

Reconhecimento

Não só porque é Natal
Mas por todas as alturas em que me ampararam,
Não só porque é Natal
Mas porque me gritam sempre que preciso que se imponha a razão,
Não só porque é Natal
Mas porque limparam as lágrimas que não devia chorar,
Não só porque é Natal
Mas porque dançam e cantam para me mimar,
Não só porque é Natal
Mas porque estão comigo sempre,
Porque se tornaram indispensáveis na minha vida,
Porque tenho por vocês um sentimento indizível!

domingo, 6 de dezembro de 2009

IMPERFEITO


Deixem-me ser !
Com todas as intervenções,
Incapazes de perceber as minhas resoluções.
Permitam-me partir quando quero ficar
Deixem-me rir precisando chorar!
Atendam ao grito como superação
Racionalizem para que não perca a razão.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

VÍCIO

Receosa quis provar-te!
Sabia que poderia tornar-se um vício
Ou ser apenas um exemplo,
Mas parecia agitar-se a vontade.
Inevitavelmente traduziste mais do que o significado…
Precisei de ti para além do necessário,
Periodizando os meus interesses
Confundindo as minhas prioridades…
Com toda a subtileza que te foi possível
Despertaste-me para algo que ignorava.
Podias ter sido a minha droga,
                                                     Tornaste-te a minha ressaca…

Melifluidade



Um olhar que espelha toda a genuinidade e candura,

Duas personalidades distintas e marcadas
Impossíveis de confundir.
Uma mão que te prende
E te faz sentir único e especial.
Uma ternura inexplicável.
Um beijo doce, carregado de proveitos
Um pedido de atenção que te envolve
Não deixando que te despegues.
Uma imensidade de vidas envolvidas e condicionadas
Um bem-querer que abarca o infinitamente inatingível.

Imunidade


Procurei-te em todos os rostos que vi,

Nunca concebendo que a cara que desejava há muito desaparecera,
Pouco segura de que alguma vez te tenha encontrado.
Enquanto as pessoas se seguiam numa espécie de espiral
Que permite observar o inicio e o fim e forma cíclica,
Entendi que nunca exististe!
Camuflavas-te em cada ser que se aproximava de mim
Deixando-me num estado ora de loucura, ora de prazer.
Em cada máscara que usaste identifico uma característica que te é inerente
Não sabendo como classificar.
Podias ser qualquer pessoa, mas decidiste ser tu!
Tarde percebi que não se prende quem se quer soltar…
Decidi deixar-te partir.
Passei a procurar algo que não te pertencesse
De forma a entender-te como imaginação.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Desentendimento


Tenho vivido a pensar
Na forma como tenho vivido.
Quão irremediáveis são as decisões tomadas,
Que em nenhuma altura deixam espaço para que outras ressurjam.
Procuro encontrar relações entre os momentos, as pessoas, os lugares…
Não aceitando que o que está desligado faz mais sentido.
Dou por mim com a consciência exacta dos movimentos involuntários do meu corpo,
Tentando, dessa forma, dissipar o inconsciente que se assume.
Engraçada a proporção que assumem as vivências, sem que nada possa ser feito para emendar.
Planeamos, pedimos, alteramos e não vivemos,
Pois desperdiçamos muito tempo a pensar em como temos vivido
E não vivemos para pensar.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

AGITAÇÃO


Se pudesse seria o vento,
Pela duplicidade com que se evidencia:
Tirano, arrasador, prepotente, majestoso,
Brisa suave, refrescante, carícia e melodia.
Sacode – me permitindo a sensação de liberdade asfixiada pelo dia,
Atemoriza-me com a força da sua súplica, em cada noite que me sinto vazia.
Ele que tudo pode com a força que, inerentemente, lhe foi atribuída,
Destruindo, à sua passagem até a mais remota ferida.
Urra com a violência que obrigo, não consentindo o abafo do bramido.
Que a minha voz fosse, à tua imagem,
Cavada e soberana, não esmorecendo com a certeza do que é capaz de fazer.
Com a mesma força tomaria fortes e fracos, lutadores e derrotados, amantes e amados,
Com a mesma força me sentiria viver.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

MARIPOSA

Uma borboleta que voa
Uma amiga que magoa
A outra sabe perdoar.
A distância que acontece
É tão natural que parece
Nunca mais acabar.
Dás voltas e voltas ao mundo
E nada de tão profundo
Irás jamais encontrar.
Uma amiga que adora
Uma outra que às vezes chora
A vida não pode parar.

DECESSA

Cada pedaço daquilo que somos

Resume-se apenas a um grito, um choro, um sufoco…
A vida, que termina e recomeça,
Deixa-nos cientes de tudo aquilo que não vivemos.
As pessoas que deixamos, o beijo que ficou por dar
O abraço que se perdeu no ar…
E os pedaços perecem!
Cada segredo é sussurrado para que só alguém especial o perceba,
O entenda, o guarde e o leve para a eternidade,
Que não é mais do que o continuar do fim.
A vida acabou, tudo ficou por dizer, tanto ficou por viver….
A oportunidade passou simplesmente!

INSÂNIA

Não penso haver nada de mais insano do que a própria loucura,

Insano para quem a sente,
Insano para quem a nota,
Insano porque não se vê,
Insano porque se vive intensamente!
É um dedo que aponta bem na tua cara,
Não é mais do que uma crítica
Que manifesta a certeza de cada dúvida.
Caracteristicamente pertence a alguém.
Loucos são todos os que a recusam,
Pois os sãos usam-na como forma de vida.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

RUÍNA


Experimento toda a vida do meu corpo,

O sangue circula cada vez mais impetuoso dentro de mim.
Contrariamente, todos os meus membros entorpecem
Como se tivessem sido extintos.
Reflexo de um pensamento estranhamente nebuloso
Vadiando na esperança de se encontrar
Andando cada vez mais perdido.
Morte, que te julgas invencível,
Que te crês a mais derradeira ameaça
Mas que nada podes contra o que sinto.
Destruí-me para que não o pudesses fazer,
Não quis comedir forças contigo, mas sei que te derrotei,
Pois já nada mais há para arruinar.

sábado, 3 de outubro de 2009

ENTIDADE


Chegados determinados momentos

Nenhum prazer será tão satisfatório como o esquecimento.
Passada a culpa, a raiva, a angústia,
Cada uma sendo de sua forma um tormento,
Torna-se demasiado doloroso cada pensamento.
Aquelas perguntas que jamais alguém saberá responder,
Os sinais que mostram o que, gritando, se tenta esconder,
Toda a certeza de que dúvida é perdoar
E a consciência de que voltas a errar.
Quando é que eu e tu deixamos de ser nós?
Quando é que perdi a capacidade de elevar a minha voz?
A vida, certeza que as interrogações surgirão,
A vida, pedaço de ti que te tira a razão.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

PERFEIÇÃO

A calma de um mar que é teu
A ânsia de quem não viveu…
O desejo que vai melhorar a certeza de não saber ficar,
A beleza do mais belo coral resplende a alegria e fá-la perdurar.
A pureza que enaltece a inocência

Que abarca aquilo que de melhor sobressai em cada um de nós,
O silêncio que em nenhum momento sepulta a tua voz.
Mais do que qualquer outra

és aquela que és só tu.
Tarde seria se não chegasse a dizer,

A vida espera por nós sempre que nos sentimos sós.

CÓRREGO

Há alguém que me diz
Hoje podes ser feliz,
No meio da sala oca
Com a mesma dor que sufoca
Num gesto que é comandado
Pelo prazer do pecado.
No meio da confusão
Coração versus razão
Oiço a água que soa
Parece a brisa do vento,
Talvez o meu pensamento
Ou o de qualquer pessoa.
No meio de um sonho meu
Num riacho que adormeceu
Toda a água já correu,
Apenas a vejo parar…
Uma gaivota esvoaça
Consigo ver a fumaça
Volta sempre…vai voltar!

SIGILO

“Dizem que ela chora”
Não sabem que ela grita,
Procura encontrar na lua
A resposta p’ro que a agita.
Tem medo, tem um segredo…
Olha serena p’ro céu
Enroscada no silêncio
Conhece bem o seu eu.
Deixa-se levar pelas estrelas
Onde sabe poder encontrar
Aquele cantinho seguro
Onde todos queremos voltar.
Esconde-se na timidez,
A noite vem não demora,
Não sabem que ela grita,
“Dizem que ela chora”.

MUDEZ

Há um silêncio pesado
Que entorpece o coração
Preciso acabar com ele
Assim me diz a razão.
Mas sei que vai doer
Talvez não vás responder
A angústia é tão pesada
Sinto que já não sou nada!
Era tão fácil lembrar
Era tão fácil dizer
Apenas uma palavra
Para não enlouquecer…
Estranha forma de vida
Esta minha de viver
Sigo pensando e morrendo
Quero ver acontecer!

ERMA

Entra sorrateiramente
Destrói como um furacão
Uns dizem que é amor
Outros chamam-lhe solidão.
Ninguém sabe quando vai embora
Ou se veio para ficar
Como um raio, como uma tora
Deixa o que devia levar.
Depois da destruição
Chega a fase de brandura
Sozinhos na imensidão
Procuramos outra aventura.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

MUDANÇA

Sem influência o tempo volta a fazer sentido
Leva os medos, as defesas, as inseguranças
Guarda as lembranças
Não te sentes perdido.
Está lá alguém que te faz ser feliz
Com um gesto que faz ou palavras que diz!
Pode ser algo novo que traz o futuro
Talvez o regresso ao passado,
Mas existe, algures, um lugar seguro.

REMINISCÊNCIA

Tantas vezes o desejo
É mais forte do que um beijo
Vê-te partir
Não sabe fazer-te voltar.
Fico triste, não sei sorrir
Aprendo, prometo
Não vou voltar a errar!
Nesta casa, amargurada
Envolvo-me com a madrugada
Penso em ti,
Não vou chorar.
Suave lembrança
Eterna esperança
Como posso não te amar?
Fico sozinha
Mantenho-me quieta
Tento ser mais um poeta
Algo em mim quer mudar…

BRADO

No meio da escuridão
Fujo da luz inquieta
Apago a voz que me grita
DESPERTA!
Corro por bosques sombrios
Buscando a razão de ser
A mesma voz me grita
HOJE NÃO VAIS MORRER!
De novo no quarto que é meu
Encoberta num manto de breu
Lembro quem me deixou
A voz forte grita agora
O TEU MUNDO JÁ MUDOU!